Bárbara Annitza

2016—2017 · TCC FUCAPI

VegAM: da pesquisa ao produto

Como pessoas vegetarianas encontravam onde comer em Manaus — e o aplicativo que nasceu dessa investigação

Papel
Pesquisa, UX e UI · projeto individual
Foco
UX Research · Arquitetura da informação · UI · Protótipo
Composição com telas originais do protótipo VegAM e formas geométricas em amarelo, roxo e vermelho

Protótipo original do VegAM: lista de restaurantes e opções vegetarianas.

Resumo

Uma busca espalhada entre Google, redes sociais e indicações virou um produto pesquisado, estruturado e testado em protótipo — com fluxos para quem procura uma refeição e para quem a oferece.

No trabalho de conclusão da graduação em Design na FUCAPI, orientado pela professora Neila Pinto, investiguei como pessoas vegetarianas encontravam opções para comer fora em Manaus. A pergunta de projeto era simples: como facilitar essa busca para quem não come carne?

A resposta foi o VegAM, um protótipo de aplicativo que reúne restaurantes, pratos e informações sobre vegetarianismo em um só lugar, e que convida clientes e estabelecimentos a manter esse repertório atualizado. O projeto foi até a etapa de interface e protótipo navegável; o aplicativo não chegou a ser desenvolvido.

~110
respostas ao questionário, 59% de pessoas vegetarianas
62,9%
das pessoas vegetarianas apontaram comer fora como a maior dificuldade
82,6%
gastavam 30 minutos ou mais procurando uma opção*
65,2%
consultavam de 3 a 4 plataformas a cada busca*

Problema

Comer fora exigia uma investigação

Manaus tinha poucos restaurantes vegetarianos, mas um número razoável de lugares com opções sem carne — só que essas opções quase nunca estavam divulgadas. Quem procurava pulava entre Google, Instagram, Facebook e aplicativos de delivery, e muitas vezes desistia de sair ou comia antes, por precaução.

Em uma das sessões de observação, uma participante passou seis minutos indo do Google ao TripAdvisor e ao Facebook atrás do cardápio de um restaurante e desistiu sem encontrá-lo. Outra pessoa entrevistada resumiu: os aplicativos de comida e de avaliação não classificavam pratos como vegetarianos, e por isso a busca ficava mais lenta.

“O problema não era a falta de comida vegetariana na cidade. Era a falta de informação sobre ela.”

Pesquisa

Números para dimensionar, observação para entender

Combinei abordagens quantitativas e qualitativas. Um questionário online com cerca de 110 pessoas, vegetarianas e não vegetarianas, mapeou hábitos e ferramentas de busca. Entrevistas semiestruturadas com observação acompanharam pessoas procurando comida no próprio celular, com tarefas cronometradas. Fiz também o mapeamento em campo dos estabelecimentos com opções vegetarianas e a análise de aplicativos similares, como HappyCow, Be Veg, Mealtless e SP Veg.

* Os números de tempo de busca e de plataformas consultadas vêm de um recorte de 23 respostas às perguntas sobre busca, separado do questionário completo.

Infográfico da pesquisa de campo com 110 pessoas: 59% vegetarianas; ferramentas de busca mais usadas: Google 27%, Instagram 25%, Facebook 20% e apps como iFood e TripAdvisor 20%; 58% disseram que ter todas as opções em uma plataforma seria um sonho
Infográfico original da pesquisa de campo (2016).

Síntese

De dados soltos a critérios de projeto

Os achados viraram cartões de insight e, deles, critérios norteadores que guiaram todas as decisões seguintes. Três personas representaram os perfis centrais: Mari, vegetariana estrita que vive procurando lugares novos; Ruan, sem restrições, que come com amigos vegetarianos; e Amanda, dona de um restaurante que já tinha opções vegetarianas, mas nenhum canal para divulgá-las.

  • Reduzir o tempo de busca por opções vegetarianas
  • Reunir as opções da cidade em um só lugar
  • Usar a proximidade como critério de escolha
  • Atrair pelo visual da comida, como já fazia o Instagram
  • Deixar clientes e estabelecimentos contribuírem com informação
Quadro com as três personas do VegAM, Mari, Ruan e Amanda, com dados demográficos, dispositivos e uso do celular
As três personas: duas pessoas que procuram e uma que oferece.

Arquitetura

Organizar a informação com quem iria usá-la

Fiz uma sessão de card sorting com uma dona de restaurante, uma pessoa vegetariana e uma não vegetariana. Os agrupamentos levaram a uma decisão estrutural: dois perfis com fluxos próprios. O perfil pessoal encontra, avalia e salva opções; o perfil comercial cadastra o estabelecimento e as próprias opções vegetarianas, classificadas por categoria.

Quadro de card sorting com post-its amarelos nomeando funções do aplicativo, como lugares, favoritos, buscar e cadastrar estabelecimento
Card sorting: as funções antes de serem agrupadas.
Mapa de fluxo do VegAM com os caminhos de entrada, criação de conta, perfil pessoal e perfil comercial

Arraste para o lado para ver o diagrama inteiro.

Mapa de fluxo: entrada, criação de conta e os dois perfis.

Interface

Decisões pensadas para a pressa de quem está com fome

Os wireframes foram testados com o caso de uso principal — encontrar um prato, ver os ingredientes e compartilhar com amigos — antes de qualquer acabamento visual. Daí saíram as decisões que foram para o protótipo.

  • Abas “Restaurantes” e “Comidas”: buscar pelo lugar ou pelo prato
  • Lista separada entre abertos e fechados, porque a pergunta real é “onde como agora?”
  • Selos para vegetariano estrito, ovolacto, lacto e ovovegetariano
  • Ingredientes visíveis em cada prato
  • Sugestão de lugares por clientes e cadastro de pratos por estabelecimentos
Wireflow do caso de uso: login, lista de restaurantes, pratos do restaurante, detalhe do prato e compartilhamento

Arraste para o lado para ver o diagrama inteiro.

Wireflow do caso de uso principal.

Da descoberta à contribuição

O fluxo conecta quem procura uma refeição com quem conhece ou oferece uma opção vegetariana.

Encontrar01 / 03
Lista de restaurantes abertos e fechados no protótipo VegAM

Encontrar

Busca de lugares por proximidade e disponibilidade.

Escolher02 / 03
Detalhe do prato Quinoa Burger com ingredientes e categoria alimentar

Escolher

Ingredientes, categoria e ação para salvar ou compartilhar.

Contribuir03 / 03
Formulário do protótipo para um estabelecimento cadastrar uma opção vegetariana

Contribuir

Cadastro feito por estabelecimentos para manter o guia atualizado.

Identidade

Uma folha que também é um mapa

O nome junta “Veg”, de vegetariano, à sigla do Amazonas e soa como “vegan”. O símbolo parte do pin de localização e o desenha como uma folha, cujas nervuras lembram as ramificações de um mapa. Roxo e amarelo, complementares, garantem contraste; vermelho e verde completam a paleta do aplicativo.

Marca VegAM em versões roxa, preta e branca, com o símbolo de localização em forma de folha e as fontes usadas

Teste

O protótipo na mão das pessoas

O protótipo navegável foi testado repetindo a simulação feita na pesquisa: as mesmas tarefas, agora com o VegAM. O TCC registra que o tempo para encontrar opções caiu bastante em relação à busca sem o aplicativo, mas não traz os tempos comparados nem o tamanho da amostra — por isso apresento esse resultado sem quantificar o ganho. Um participante disse que ter a lista de todos os lugares com opções vegetarianas o ajudou a decidir muito mais rápido do que pesquisando no Google, como costumava fazer.

Registro de uma pessoa explorando o protótipo VegAM em um celular

Teste com protótipo

A interface saiu da tela e foi para a mão das pessoas.

O protótipo navegável foi testado em celular, com as mesmas tarefas cronometradas da pesquisa.

Se eu fizesse hoje

O que eu mudaria com o que aprendi depois

O VegAM é de 2017, antes dos meus anos em produto e Design Systems. Revisitá-lo é um bom exercício de crítica.

  • Medir o teste de verdade: tarefas iguais, amostra definida e tempos registrados com e sem o app
  • Tratar o cardápio como dado estruturado — o centro do problema era informação, não tela
  • Rever o contraste de amarelo sobre branco e criar tokens e componentes desde o início
  • Desenhar incentivos para que os estabelecimentos mantivessem o conteúdo atualizado
  • Avaliar se o filtro vegetariano não funcionaria melhor dentro de plataformas que as pessoas já usam